Opinião

A Sangue Frio, Truman Capote

Este é um dos meus livros favoritos, um acaso muito feliz. Comprei-o no dia 4 de abril de 2006 (eu coloco sempre o meu nome e a data em que adquiro os livros), no aeroporto Francisco Sá Carneiro. Os meus pais e irmão mais novo são emigrantes, e eu ia visitá-los por altura da Páscoa. Só que, na minha habitual tendência de me esquecer de algo, não levei nenhum livro na mala. Como fui de boleia para o aeroporto, cheguei lá tão cedo que nem sequer o balcão para despachar a mala estava aberto! Lá consegui que me fizessem check-in e fui deambular pelas lojas. Estava decidida a passar para a zona internacional, quando me lembrei de que a minha mãe me tinha pedido que lhe levasse uma revista. Ela pede-me sempre, e eu nem sempre me lembro… desculpa, mãe! Entrei naquele quiosque mesmo em frente à porta de entrada para a zona internacional, e eles costumam ter lá alguns livros. Aproveitei para dar uma vista de olhos (quem nunca?) e deparei-me com este livro. A capa chamou-me a atenção pela simplicidade da composição, e pelo contraste de cores. Gostei do título. Eu gosto de policiais, e este tinha bom aspecto. «A obra-prima do “romance não-ficção”», lê-se na capa, e na contracapa há boas críticas. Procurei a sinopse nas orelhas do livro e fiquei mesmo curiosa. Lá paguei os 19.95€ e fui à minha vida. Mal me sentei à espera que a porta de embarque abrisse comecei a ler. E nunca mais parei. Eu até costumo dormir ou ouvir música durante as viagens (quando viajo sozinha), mas fiquei mesmo agarrada. O livro, escusado será dizer, não durou dois dias, e depois tive que assaltar a biblioteca da minha mãe. A sorte é que ela também gosta de ler, apesar da mania irritante de comprar livros em francês de vez em quando :P

Hoje é dia mundial do Livro e achei por bem partilhar convosco este, porque é magistral.

A obra conta a história de um bizarro crime ocorrido numa cidade esquecido no Kansas, em 1959. Uma família de quatro pessoas é encontrada morta em sua própria casa, vítimas de assassinato, mas sem motivo aparente. O intrigante crime chama a atenção do jornalista Truman Capote da revista “The New Yorker”, que publicou toda a história em quatro capítulos na revista. As quatro partes viriam a ser compiladas num só livro no ano seguinte, 1966, dando origem a “In Cold Blood”, título original. Há muita controvérsia sobre este livro, pois Capote contou com a ajuda da sua amiga, Harper Lee (sim, é essa Harper Lee, autora de “Mataram a Cotovia”, que era amiga de infância do jornalista) à qual nunca deu crédito, além de jornalisticamente os seus métodos serem questionáveis. Ele utilizou técnicas da escrita de romances para contar esta história, que é a génese do estilo literário, contudo, o autor não utilizava dispositivos de gravação nas entrevistas – e foram muitas – confiando apenas na sua memória para reproduzir na escrita os factos, o que nos faz questionar a exatidão dos factos relatados. Polémicas à parte, às quais eu era absolutamente alheia na altura que o li, o livro é uma obra genial, e que nos dá tanto, mas tanto em que pensar!

O livro acompanha a história do crime por ordem cronológica, oferecendo-nos uma perspectiva da visão dos próprios assassinos, Dick e Perry. Esta humanização dos criminosos confere uma aura pesada ao livro, mas ao mesmo tempo obriga-nos a questionar os valores morais absolutos. Poderemos compreender o que leva alguém a cometer um acto tão vil? Este livro dá-nos uma perspectiva que quebra a dicotomia bem-mal, preto-branco, nós-eles, criminosos-inocentes. Confesso que senti pena de Perry. Não o desculpo, claro, mas a detalhada contextualização que Capote faz com tanta mestria coloca-nos numa posição tão próxima e com tamanha intensidade que é preciso por vezes reler, ou abrandar o ritmo, para assimilar tanto conteúdo e emoções. Mentiria se dissesse que me recordo de todos os detalhes, mas asseguro-vos que me recordo de todas as emoções. A última das quais foi o grande dilema moral do enforcamento dos criminosos.

(Disclaimer: eu sou contra a pena de morte, em qualquer circunstância)

Este livro marcou-me, e creio que marca qualquer uma que o leia. Nunca o reli. Quero fazê-lo, mas acho que preciso de outra maturidade emocional para entender o que me escapou da primeira vez.

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